O ataque ÀS crases invasoras (2)

 

Voltamos à nossa análise do acento grave indicador de crase, inspirada no livro Decifrando a crase, de Celso Luft. Vamos lá!

Outro dia li na imprensa esportiva:

Entre 11 de agosto e 26 de setembro, foram apenas oito jogos *a frente da equipe mineira, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas, totalizando um aproveitamento de 33,33%.

Oitos jogos a frente da equipe mineira ou à frente da equipe mineira? Se aplicarmos uma das técnicas que nos ensina Celso Luft, a da masculinização, a solução fica fácil. A técnica consiste em substituir o substantivo feminino por um masculino equivalente. Feita a substituição, veremos se será necessário somente o artigo definido o, ou a contração entre uma preposição e o artigo masculino = ao/no/pelo. Vejamos como fica se substituirmos frente por comando:

(….) oito jogos no/ao comando da equipe mineira (…)

Se foi necessário usar preposição + artigo no caso masculino, no caso feminino também será. Portanto, a frase correta seria:

Entre 11 de agosto e 26 de setembro, foram apenas oito jogos à frente da equipe mineira, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas, totalizando um aproveitamento de 33,33%.

Aliás, trata-se de uma das expressões femininas que a língua pede acento grave, como à espera, à noite, à força, à vontade, à instância de, à faca, entre outras.

Até a próxima!

Hipérbatos

 

Segundo Celso Cunha (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 2013), hipérbato é a “inversão da ordem normal das palavras na oração, ou da ordem das orações no período, com finalidade expressiva.” Foi uma figura de linguagem muito utilizada na poesia barroca.

Um dos exemplos mais clássicos para nós, brasileiros, de uso do hipérbato é o nosso hino. Logo no início, temos: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”. Desconstruindo os hipérbatos: as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.

Ainda hoje, o hipérbato não deixa de ser um recurso da língua para quem precisar de uma passagem expressiva num texto, numa poesia, numa tradução. No meu caso, já tive de recorrer a hipérbatos para traduzir diálogos de um jogo de videogame. O personagem falava como o Yoda, de Guerra nas Estrelas.

E o que seria das canções, dos poemas, sem essa figura de linguagem? No samba “O mundo é um moinho”, de Cartola, lá está o hipérbato (em negrito): “Preste atenção, querida. De cada amor tu herdarás só o cinismo”.

Voltando ao hino, compartilho aqui uma versão interpretada que achei no blog da Dad Squarisi. Mais exemplos de hipérbatos serão bem-vindos. Até a próxima!