Coronavírus: glossário

Antes de mais nada, espero que estejam todos sãos e salvos nesta crise sanitária mundial. Aqui na Espanha, o estado de emergência declarado no dia 14 de março teria duração de 15 dias, mas foi ampliado por mais 15, portanto estaremos confinados até o dia 12 de abril (por enquanto). “A gente vai levando”, como na canção.

E como o assunto ultimamente tem sido o mesmo no mundo todo, na área da tradução não seria diferente. Estamos traduzindo circulares, notícias, recomendações. Hoje, li uma notícia no The Economist sobre o grande volume de artigos científicos que estão sendo publicados sobre o coronavírus: só nos primeiros 80 dias deste ano foram 1.245. Partindo das traduções que fiz até agora, pensei em compilar alguns termos básicos e publicar aqui um miniglossário. Minha ideia é ir ampliando-o e publicando atualizações aqui. Vamos lá para o primeiro lote:

 

Inglês Espanhol Português
closure cierre fechamento
coronavirus coronavirus coronavírus
cough toser tossir
cough tos tosse
disposable tissue pañuelo desechable lenço descartável
economic slowdown desaceleración económica desaceleração econômica
expert experto especialista
face mask, mask mascarilla máscara
fever fiebre febre
gloves guantes luvas
lockdown confinamiento confinamento
outbreak brote surto
pandemic pandemia pandemia
recession recesión recessão
shortness of breath falta de aire falta de ar
slowdown desaceleración desaceleração
sneeze estornudar espirrar
state of emergency estado de alarma estado de emergência
test test teste
war economy economía de guerra economia de guerra

 

Nos homônimos (mesma grafia) ou parônimos (grafia parecida), temos que prestar atenção na pronúncia. Por exemplo, pandemia em espanhol se pronuncia “pand(ê)mia”, mas em português se pronuncia “pandem(í)a”.

Cuidem-se e até a próxima!

Photo by Ashkan Forouzani on Unsplash

Rapidinhas (4)

  • de las narices <> chato

Aqui na Espanha, na linguagem coloquial, usam uma expressão engraçada quando querem se referir a pessoa ou coisa chata, aborrecida, irritante: de las narices. Exemplos: ayer hablé con el Fulano de las narices; tengo que leer este libro de las narices. Em português diríamos: ontem falei com o chato do Fulano; tenho que ler esse livro chato.

Até a próxima!

O ataque ÀS crases invasoras (2)

 

Voltamos à nossa análise do acento grave indicador de crase, inspirada no livro Decifrando a crase, de Celso Luft. Vamos lá!

Outro dia li na imprensa esportiva:

Entre 11 de agosto e 26 de setembro, foram apenas oito jogos *a frente da equipe mineira, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas, totalizando um aproveitamento de 33,33%.

Oitos jogos a frente da equipe mineira ou à frente da equipe mineira? Se aplicarmos uma das técnicas que nos ensina Celso Luft, a da masculinização, a solução fica fácil. A técnica consiste em substituir o substantivo feminino por um masculino equivalente. Feita a substituição, veremos se será necessário somente o artigo definido o, ou a contração entre uma preposição e o artigo masculino = ao/no/pelo. Vejamos como fica se substituirmos frente por comando:

(….) oito jogos no/ao comando da equipe mineira (…)

Se foi necessário usar preposição + artigo no caso masculino, no caso feminino também será. Portanto, a frase correta seria:

Entre 11 de agosto e 26 de setembro, foram apenas oito jogos à frente da equipe mineira, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas, totalizando um aproveitamento de 33,33%.

Aliás, trata-se de uma das expressões femininas que a língua pede acento grave, como à espera, à noite, à força, à vontade, à instância de, à faca, entre outras.

Até a próxima!

Hipérbatos

 

Segundo Celso Cunha (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 2013), hipérbato é a “inversão da ordem normal das palavras na oração, ou da ordem das orações no período, com finalidade expressiva.” Foi uma figura de linguagem muito utilizada na poesia barroca.

Um dos exemplos mais clássicos para nós, brasileiros, de uso do hipérbato é o nosso hino. Logo no início, temos: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”. Desconstruindo os hipérbatos: as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.

Ainda hoje, o hipérbato não deixa de ser um recurso da língua para quem precisar de uma passagem expressiva num texto, numa poesia, numa tradução. No meu caso, já tive de recorrer a hipérbatos para traduzir diálogos de um jogo de videogame. O personagem falava como o Yoda, de Guerra nas Estrelas.

E o que seria das canções, dos poemas, sem essa figura de linguagem? No samba “O mundo é um moinho”, de Cartola, lá está o hipérbato (em negrito): “Preste atenção, querida. De cada amor tu herdarás só o cinismo”.

Voltando ao hino, compartilho aqui uma versão interpretada que achei no blog da Dad Squarisi. Mais exemplos de hipérbatos serão bem-vindos. Até a próxima!

Rapidinhas: espanhol <> português

Hoje inauguro a série Rapidinhas, para compartilhar um pequeno glossário de expressões e frases que ouço com frequência aqui na Espanha e vou compilando. Aqui vai a primeira delas:

  •  pase lo que pase <> aconteça o que acontecer

Como sempre, comentários são bem-vindos. A partir da próxima postagem da série, darei um pouco de contexto (se necessário) e irei diretamente ao verbete, sem preliminares. Até lá!

Translating Digital Marketing Content Part 2: Get

As promised, today I’ll discuss the translation of the verb ‘to get’ into Portuguese in the marketing field.

We know that this verb is a bit of a wild card in English, but unfortunately, there is no equivalent wild card in Portuguese. Therefore, we’ll need to use different verbs and structures on a case-by-case basis if we want to sound natural and avoid always using the verbs ‘ter’ and ‘obter’.

Below are some real examples and their suggested translations.

‘Get everything you need to attract more customers’

This phrase is often used by software companies to sell their product. Instead of translating it literally as ‘obtenha tudo o que você precisa para atrair mais clientes’, try stepping back a little and saying ‘implemente uma solução completa para atrair mais clientes’ or ‘aumente sua clientela com nossa solução completa’.

‘Get started’

Depending on the context, ‘get started’ could be ‘comece hoje mesmo’, ‘introdução’, or even ‘fale conosco’ when it is a link that leads the viewer to a contact page.

‘Get better results’

Here we have a more obvious option on the one hand — ‘obtenha melhores resultados’ — and less obvious ones on the other — ‘melhore os resultados’ or ‘aumente sua receita’.

‘Get inspired’

It’s much more natural to say ‘inspire-se’ than ‘fique inspirado’.

‘Get smart’

The other day, I saw this phrase translated as ‘fique inteligente’ in a revision task. I understood the reader might feel offended and think we’re saying he isn’t intelligent and should become so. To avoid this friction, how about ‘explore o seu talento’, ‘aguce sua inteligência’, ‘estimule sua capacidade’, or something similar?

‘Get access to people-based marketing platforms’

Sometimes, it is just a matter of researching a little or asking for context. Here, instead of saying ‘tenha/obtenha acesso a plataformas de marketing baseado em pessoas’ we could say ‘garanta seu acesso a plataformas …’ or ‘solicite seu acesso a plataformas …’, or even ‘acesse plataformas …

‘Get our free guide’

I have nothing against ‘obtenha nosso guia gratuito’, but if it is a direct link to copy, then we could say ‘baixe o nosso guia gratuito’. If we have to place an order first, how about ‘solicite o nosso guia gratuito’? We could also say ‘garanta uma cópia gratuita do nosso guia’.

Final Thoughts

To avoid being repetitive and always translating ‘get’ as ‘ter’ or ‘obter’, we should find the most suitable Portuguese verb in every situation to sound as natural as we can. There are many different options out there, including ‘ter’, ‘obter’, ‘receber’, ‘adquirir’, ‘comprar’, ‘pegar’, ‘conseguir’, ‘buscar’, ‘procurar’, ‘acessar’, ‘ficar’, ‘garantir’, ‘solicitar’ and more. It’s all about getting the right option for the right context.

The next tricky verb on my list is an idiom: ‘make sure’. If you have any suggestions for verbs that should be added, please leave a comment. See you soon!

Photo by Nigel Tadyanehondo on Unsplash

Regência verbal: verbo avançar

Na minha experiência como revisor de textos e traduções, grande parte das correções estão no campo da regência verbal. Atribuo esses erros a que muitas vezes escrevemos “de ouvido”, por intuição, sem ter o domínio da regência de determinados verbos na norma culta. Perdoável.

E após revisarmos nosso texto e o uso que fizemos desses verbos, deixamos passar o erro sem consultar a regência verbal, seja no dicionário, seja em obras específicas sobre o assunto. Menos perdoável.

O exemplo de erro de regência de hoje vem da caneta de um político que, no último fim de semana, esbravejou nas redes sociais contra a imprensa nos seguintes termos: “A Folha de São Paulo avançou a todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas dos canalhas.”

Motivo do erro: usar verbo transitivo direto como indireto. O verbo avançar, no sentido de superar, é transitivo direto. Portanto, não há necessidade da preposição “a”. Seria correto (gramaticalmente) dizer: “A Folha de São Paulo avançou todos os limites…”

Aproveito para recomendar novamente o excelente Dicionário Prático de Regência Verbal, de Celso Luft. Para quem trabalha com a língua escrita, tê-lo sempre ao alcance da mão é garantia de qualidade.

Até a próxima!

O ataque ÀS crases invasoras

Com este post inauguro a análise de alguns acentos graves, indicadores de crase, que vejo por aí. Embora o título sugira ataque, minha intenção não é ridicularizar nem julgar a inteligência de ninguém. E nem sempre serão críticas: também vou procurar elogiar o bom uso público do acento grave.

A minha ideia foi difundir aqui as técnicas de Celso Luft, no ótimo livro Decifrando a crase, para entender o uso do acentinho para trás sem decorebas. Como diz o mestre no livro, a regra é uma só: crase nada mais é do que a junção da preposição a com o artigo definido feminino a. Com exceção das expressões com palavra feminina que em teoria não precisariam de crase, mas que por tradição ganharam o acento (como à vista), se não cabe artigo definido feminino, não cabe crase.

Vamos lá para a primeira análise (copiando o recurso do livro, usarei o * antes das frases incorretas).

Outro dia li num site de marketing digital que um aplicativo tinha, entre outros, o seguinte recurso:

*Acesso à APIs nativas como geolocalização, câmera, microfone […]

Opa! Escorregaram em dois princípios básicos.

Primeiro: crase nada mais é do que a junção da preposição a com o artigo definido feminino a. Portanto, temos a + a = à. Se for necessário o artigo feminino no plural, temos a + as = às. No caso analisado, o começo do raciocínio é correto, já que o substantivo acesso precisa da preposição a (acesso a). Mas as APIs da frase não são determinadas, definidas. São certas APIs nativas, como geolocalização etc., que podem ser do Android, do iPhone e de outros aparelhos. Então, por que o artigo definido antes desse termo meio indefinido? Só a preposição a basta: Acesso a APIs nativas como geolocalização, câmera, microfone […]

Segundo: antes de palavra no plural não podemos usar crase no singular. Ainda que seja um termo inglês pluralizado, como nesse caso: APIs. Portanto, se fossem APIs definidas, aqui só seria possível: Acesso às APIs nativas…

Espero que este e os próximos posts também nos ajudem a continuar decifrando a crase.

Até a próxima!