Regência verbal: verbo avançar

Na minha experiência como revisor de textos e traduções, grande parte das correções estão no campo da regência verbal. Atribuo esses erros a que muitas vezes escrevemos “de ouvido”, por intuição, sem ter o domínio da regência de determinados verbos na norma culta. Perdoável.

E após revisarmos nosso texto e o uso que fizemos desses verbos, deixamos passar o erro sem consultar a regência verbal, seja no dicionário, seja em obras específicas sobre o assunto. Menos perdoável.

O exemplo de erro de regência de hoje vem da caneta de um político que, no último fim de semana, esbravejou nas redes sociais contra a imprensa nos seguintes termos: “A Folha de São Paulo avançou a todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas dos canalhas.”

Motivo do erro: usar verbo transitivo direto como indireto. O verbo avançar, no sentido de superar, é transitivo direto. Portanto, não há necessidade da preposição “a”. Seria correto (gramaticalmente) dizer: “A Folha de São Paulo avançou todos os limites…”

Aproveito para recomendar novamente o excelente Dicionário Prático de Regência Verbal, de Celso Luft. Para quem trabalha com a língua escrita, tê-lo sempre ao alcance da mão é garantia de qualidade.

Até a próxima!

O ataque ÀS crases invasoras

Com este post inauguro a análise de alguns acentos graves, indicadores de crase, que vejo por aí. Embora o título sugira ataque, minha intenção não é ridicularizar nem julgar a inteligência de ninguém. E nem sempre serão críticas: também vou procurar elogiar o bom uso público do acento grave.

A minha ideia foi difundir aqui as técnicas de Celso Luft, no ótimo livro Decifrando a crase, para entender o uso do acentinho para trás sem decorebas. Como diz o mestre no livro, a regra é uma só: crase nada mais é do que a junção da preposição a com o artigo definido feminino a. Com exceção das expressões com palavra feminina que em teoria não precisariam de crase, mas que por tradição ganharam o acento (como à vista), se não cabe artigo definido feminino, não cabe crase.

Vamos lá para a primeira análise (copiando o recurso do livro, usarei o * antes das frases incorretas).

Outro dia li num site de marketing digital que um aplicativo tinha, entre outros, o seguinte recurso:

*Acesso à APIs nativas como geolocalização, câmera, microfone […]

Opa! Escorregaram em dois princípios básicos.

Primeiro: crase nada mais é do que a junção da preposição a com o artigo definido feminino a. Portanto, temos a + a = à. Se for necessário o artigo feminino no plural, temos a + as = às. No caso analisado, o começo do raciocínio é correto, já que o substantivo acesso precisa da preposição a (acesso a). Mas as APIs da frase não são determinadas, definidas. São certas APIs nativas, como geolocalização etc., que podem ser do Android, do iPhone e de outros aparelhos. Então, por que o artigo definido antes desse termo meio indefinido? Só a preposição a basta: Acesso a APIs nativas como geolocalização, câmera, microfone […]

Segundo: antes de palavra no plural não podemos usar crase no singular. Ainda que seja um termo inglês pluralizado, como nesse caso: APIs. Portanto, se fossem APIs definidas, aqui só seria possível: Acesso às APIs nativas…

Espero que este e os próximos posts também nos ajudem a continuar decifrando a crase.

Até a próxima!

Madonna em português

 

“O mundo é selvagem. O caminho é solitário.” Mensagens pouco otimistas, mas em português e na voz de Madonna, no refrão da faixa Killers Who Are Partying, do novo álbum, Madame X. Tudo indica que, morando em Lisboa, a rainha do pop se encantou com a língua de Camões. Ficou bonito o diálogo inglês/português permeando a canção, que também “diz”: “Eu sei o que sou e o que não sou.” Deixo aqui o link para o vídeo. Até a próxima!

Espanhol x português: regência diferente (6)

Jugar a x jogar:

No sentido de realizar um jogo, passar o tempo com um jogo, em português o verbo jogar é transitivo direto. Assim, dizemos jogar futebol, jogar bola, jogar vôlei, jogar xadrez etc. Já no espanhol da Espanha, o verbo jugar, nesse sentido, é usado com um complemento indireto: jugar al fútbol, jugar al balón, jugar al vóley, jugar al ajedrez etc.

 Exemplos:

“Como quem não quer nada, procurei avistar-me com Padilha moço (Luís). Encontrei-o no bilhar, jogando bacará, completamente bêbedo.” (Graciliano Ramos, em São Bernardo)

“`[…] ciudades como Barcelona, en cuya normativa se sitúa la prohibición de jugar al balón desde 2005 y en la que se llegó a instaurar también carteles proclamando el veto.” (El País)

Imagem: elpais.com

Espanhol x português: regência diferente (5)

Tener miedo a/de algo o alguien (es) x ter medo a/de algo ou alguém (pt)

Embora ambas as preposições (a/de) sejam possíveis em ambos os idiomas, na Espanha ouço mais dizerem tener miedo a. No Brasil, ouvia mais ter medo de. No Brasil, Os Três Porquinhos cantavam: “Quem tem medo do lobo mau?” Aqui na Espanha, como podem ver na capa do livro abaixo, ¿a quién tiene miedo Caperucita Roja?

Sons das cousas

O título deste post é também o de um capítulo do livro Vocabulário Analógico, de Firmino Costa. A edição que eu tenho é dos anos 1930, comprada num sebo, e já tem as páginas bem amareladas. Mas resiste e ainda é de grande utilidade.

Por exemplo, vocês sabem que palavra dar para o som das coisas?

Aqui vão alguns exemplos, tirados do livro: o burburejar da água, o chiar dos alimentos ao fogo, o galope/tropel dos animais, o estridular do apito, o farfalhar das árvores, o fonfonar dos automóveis, o frêmito das asas, o assobio da bala, o estalar do beijo, o estouro da bomba, o barulhar do bonde, o ranger das botinas, o tilintar da campainha, o retumbar/ribombar do canhão, o chiar do carro de bois, o estalido do chicote, o tilintar dos copos, o tinir das esporas, o restrugir do ferro, o crepitar do fogo, o arquejar do fole, o bater das horas, o bramar do mar, o ranger da pena (de escrever), o bater/ranger da porta, o badalar do sino, o atroar do trovão, o burburinhar do vento, e por aí vai.

Ainda bem que ainda existem esses tesouros que preservam o esplendor da língua portuguesa.

Um abraço, e até a próxima.

Espanhol x português: regência diferente (4)

“Aprender de alguien” (es) x aprender com alguém (pt). Embora também seja possível, em português, dizer “aprendi de meus pais”, o mais frequente é dizer “aprendi com meus pais”. Já em espanhol, o mais frequente é dizer “aprendí de mis padres”.

Exemplos: (es) “Sin duda, el paso del tiempo a veces es algo agradable y solo basta con mirar para ver, para aprender de los errores, para redecorar la casa que habitamos y limpiar el polvo de las esquinas.” Fonte: El País

(pt) “Que aprendi contigo? Aprendi a olhar uma pessoa trançando fios elétricos.” (Clarice Lispector, em “A paixão segundo G.H.”)

Espanhol x português: regência diferente (3)

Esperar a alguien (es) x esperar alguém (pt): em espanhol, “esperamos a alguien”. Já em português, esperamos alguém, ou por alguém, neste caso com certa carga afetiva: “esperei por ela”. Fontes: El libro del español correcto (Instituto Cervantes) e Dicionário de regência verbal (Celso Luft).

Espanhol x português: regência diferente (2)

Se parece a (es) x se parece com (pt): embora em português também seja possível dizer “ele se parece ao pai”, o mais comum é ouvirmos “ele (se) parece com o pai”. Já no espanhol, o mais comum é “se parece a”: “La música que más se parece al flamenco es la clásica” (Fonte: ABCdesevilla).

Regência: um dos caminhos para evitar o “portunhol” (1)

Uma diferença sutil mas importante entre o português e o espanhol é a diferença de regência, tanto verbal como nominal. Muitas vezes percebo que o falante de espanhol é português ou brasileiro (um deles sendo eu mesmo) pela influência da regência do idioma nativo, e vice-versa.
 
Hoje quero inaugurar uma série de pequenas postagens sobre essas diferenças. Vou utilizar, entre parênteses, as siglas (es) para espanhol e (pt) para português, e exemplificar com passagens de jornais e livros. Entre minhas obras de referência estarão o Dicionário de regência verbal, de Celso Luft, e El libro del español correcto, do Instituto Cervantes.
 
1. Diferente a (es) x diferente de (pt)
 
O espanhol permite a regência “diferente a”. Já em português, dizemos sobretudo “diferente de”:
 
(es) “Boston es diferente a las ciudades americanas…” (jornal ABC), “La Italia de hace treinta años es muy diferente a la actual…” (jornal El País);
 
(pt) “— Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquelas praias, aquelas ruas, é diferente dos outros bairros.” (Quincas Borba, de Machado de Assis), “Descobrimos outro Brasil, tão diferente do Amazonas (…)” (Um solitário à espreita, de Milton Hatoum).