Espanhol x português: regência diferente (6)

Jugar a x jogar:

No sentido de realizar um jogo, passar o tempo com um jogo, em português o verbo jogar é transitivo direto. Assim, dizemos jogar futebol, jogar bola, jogar vôlei, jogar xadrez etc. Já no espanhol da Espanha, o verbo jugar, nesse sentido, é usado com um complemento indireto: jugar al fútbol, jugar al balón, jugar al vóley, jugar al ajedrez etc.

 Exemplos:

“Como quem não quer nada, procurei avistar-me com Padilha moço (Luís). Encontrei-o no bilhar, jogando bacará, completamente bêbedo.” (Graciliano Ramos, em São Bernardo)

“`[…] ciudades como Barcelona, en cuya normativa se sitúa la prohibición de jugar al balón desde 2005 y en la que se llegó a instaurar también carteles proclamando el veto.” (El País)

Imagem: elpais.com

Espanhol x português: regência diferente (5)

Tener miedo a/de algo o alguien (es) x ter medo a/de algo ou alguém (pt)

Embora ambas as preposições (a/de) sejam possíveis em ambos os idiomas, na Espanha ouço mais dizerem tener miedo a. No Brasil, ouvia mais ter medo de. No Brasil, Os Três Porquinhos cantavam: “Quem tem medo do lobo mau?” Aqui na Espanha, como podem ver na capa do livro abaixo, ¿a quién tiene miedo Caperucita Roja?

Espanhol x português: regência diferente (4)

“Aprender de alguien” (es) x aprender com alguém (pt). Embora também seja possível, em português, dizer “aprendi de meus pais”, o mais frequente é dizer “aprendi com meus pais”. Já em espanhol, o mais frequente é dizer “aprendí de mis padres”.

Exemplos: (es) “Sin duda, el paso del tiempo a veces es algo agradable y solo basta con mirar para ver, para aprender de los errores, para redecorar la casa que habitamos y limpiar el polvo de las esquinas.” Fonte: El País

(pt) “Que aprendi contigo? Aprendi a olhar uma pessoa trançando fios elétricos.” (Clarice Lispector, em “A paixão segundo G.H.”)

Espanhol x português: regência diferente (3)

Esperar a alguien (es) x esperar alguém (pt): em espanhol, “esperamos a alguien”. Já em português, esperamos alguém, ou por alguém, neste caso com certa carga afetiva: “esperei por ela”. Fontes: El libro del español correcto (Instituto Cervantes) e Dicionário de regência verbal (Celso Luft).

Espanhol x português: regência diferente (2)

Se parece a (es) x se parece com (pt): embora em português também seja possível dizer “ele se parece ao pai”, o mais comum é ouvirmos “ele (se) parece com o pai”. Já no espanhol, o mais comum é “se parece a”: “La música que más se parece al flamenco es la clásica” (Fonte: ABCdesevilla).

Regência: um dos caminhos para evitar o “portunhol” (1)

Uma diferença sutil mas importante entre o português e o espanhol é a diferença de regência, tanto verbal como nominal. Muitas vezes percebo que o falante de espanhol é português ou brasileiro (um deles sendo eu mesmo) pela influência da regência do idioma nativo, e vice-versa.
 
Hoje quero inaugurar uma série de pequenas postagens sobre essas diferenças. Vou utilizar, entre parênteses, as siglas (es) para espanhol e (pt) para português, e exemplificar com passagens de jornais e livros. Entre minhas obras de referência estarão o Dicionário de regência verbal, de Celso Luft, e El libro del español correcto, do Instituto Cervantes.
 
1. Diferente a (es) x diferente de (pt)
 
O espanhol permite a regência “diferente a”. Já em português, dizemos sobretudo “diferente de”:
 
(es) “Boston es diferente a las ciudades americanas…” (jornal ABC), “La Italia de hace treinta años es muy diferente a la actual…” (jornal El País);
 
(pt) “— Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquelas praias, aquelas ruas, é diferente dos outros bairros.” (Quincas Borba, de Machado de Assis), “Descobrimos outro Brasil, tão diferente do Amazonas (…)” (Um solitário à espreita, de Milton Hatoum).